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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Marcas de uma vida

Tenho marcas no corpo
Que me lembram de quem sou.
Marcas que carrego
Da memória que já morreu.

Tenho marcas quase invisíveis,
Dessas que só amigos percebem,
Que só enxergam os mais sensíveis,
Que revelam dores que não me cabem.

Tenho marcas expostas,
Dessas bem firmes e delineadas,
Que quem quiser enxerga.

Tenho marcas à mostra
Na minha gordura exagerada,
Na minha incontida irreverência,
Na revolta que não desaparece.

Tenho marcas que não me abandonam,
E que vez ou outra se arrependem
De jamais se esquecerem.






Tenho marcas que vez ou outra inflamam,
E me acorrentam na alma ferida e marcada,
Para sempre,
nessas marcas
Que não desaparecem.

Mariana Tavares

Hoje o post é uma poesia. O melhor jeito de para traduzir sentimentos...

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Olhar de cachorro pidão no mercado do coração

Depois de longo e tenebroso inverno... de imagens, ideias, pensamentos e tempo; me vi obrigada a me distanciar desse blog. Mas eis que hoje volto à carga e recomeço com um texto singelo sobre o amor e uma imagem que para mim é amor puro!

Fiz essa foto há muitos anos em um dia de profunda tristeza quando voltei do enterro do meu Tio Mário e com o coração apertado pela triste situação da saúde do meu avô.
Cheguei em casa e me deparei com o enorme sentimento de perda e a sensação de que algumas despedidas parecem maiores do que realmente são, não pela força mas pela sutileza como se apresentam. Naquele dia ao chegar a minha casa descobri que meu tio-avô me era extremamente querido simplesmente porque existia no meu dia-a-dia. Percebi que poderia viver sem ele, mas seria um viver um pouquinho mais vazio, em especial nas visitas a minha avó sem ele por lá com o café coado e aquele jeitinho suave de ser. Consegui fazer uma única coisa ali sozinha – sentei nas pedras em volta da piscina e chorei, chorei porque me senti amparada pela Juju.
E depois de muito chorar descobri naquele olhar a certeza de que tudo ficaria bem. Fotografei a July logo depois das lágrimas e o seu olhar meio questionador, meio calmante foi a mais singela tradução do amor puro, vendido, comprado, doado, encontrado no mundo eternamente em liquidação.
Em 2010 essa sensação de amor e mundo eternamente em liquidação voltou no poema que completa este post:
Mercado de coração
Tá anunciado.
Grande liquidação!
Coração vendido em pedaço,
Almas encontradas no balcão.
Percorro os corredores perdida
Sem encontrar minha razão
Foto que tirei da minha cadela vira-lata July
Procurando você na vida
E também nessa grande ilusão
Cada qual segura sua parte
E briga pela promoção.
Uns querem a arte
Outros querem o tesão.
Eu quero tudo que me libera
Ou que chama minha atenção
Mas a minha grande espera
É pelo seu descontão.
Por isso me diga sem demora
Quanto vale o seu coração,
Porque eu compro agora
Se tiver nessa liquidação.
E eu lhe ofereço em pagamento
Olhar de cachorro pidão.
E também pago com sol se pondo
Ou ainda o meu jeitão
De cachorro sem dono
Atrás de você nessa liquidação.
Mariana Tavares